No dia 29 de abril de 2026, tive a oportunidade de participar, em Brasília, do Encontro de Acessibilidade e Inclusão promovido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O convite foi recebido por meio do meu e-mail institucional dos Correios, o que tornou essa experiência ainda mais significativa. Participei como servidor público, pessoa surda, usuário de implante coclear bilateral, bilíngue em português e Libras, e profissional que atua há anos na área de inclusão e acessibilidade.
O objetivo do encontro foi reunir representantes da Justiça Eleitoral de todo o país, especialistas, coordenadores de acessibilidade, pessoas com deficiência e demais participantes para discutir avanços, desafios e perspectivas para uma Justiça Eleitoral mais acessível e inclusiva.
Desde o início, ficou evidente que o tema vem recebendo atenção crescente dentro da Justiça Eleitoral. Representantes de diversos Tribunais Regionais Eleitorais apresentaram projetos, compartilharam experiências e demonstraram como cada estado vem buscando ampliar a acessibilidade para os eleitores com deficiência.
Foi interessante perceber que muitos desafios são comuns em diferentes regiões do país. Ao mesmo tempo, também foi possível conhecer iniciativas criativas e soluções que vêm produzindo resultados positivos.
Embora o conteúdo tenha sido bastante rico, alguns aspectos da organização chamaram minha atenção.
O evento apresentou certa desorganização estrutural. Havia qté mesmo poucas cadeiras para a quantidade de participantes presentes, fazendo com que muitas pessoas permanecessem em pé durante parte da programação. Considerando que o tema central do encontro era justamente acessibilidade e inclusão, esse foi um ponto que poderia ter recebido maior atenção.
Ao longo do dia, porém, a dinâmica foi melhorando e a programação da tarde transcorreu de forma mais organizada.
Os painéis abordaram diferentes aspectos da acessibilidade eleitoral. Foram discutidos desafios enfrentados por pessoas com deficiência, projetos desenvolvidos pelos tribunais regionais, iniciativas voltadas ao futuro das eleições e estratégias para ampliar a participação cidadã.
Um dos temas que mais me chamou a atenção foi a preocupação com pessoas com deficiência que demandam níveis mais elevados de apoio para exercer seus direitos. Essa discussão demonstra que a acessibilidade precisa ser pensada de forma ampla, contemplando diferentes realidades e necessidades.
Outro aspecto apresentado foi o uso de centrais de atendimento em Libras para apoiar eleitores surdos. A proposta prevê mecanismos que permitam ao eleitor acessar atendimento especializado quando necessário.
Sem dúvida, trata-se de um avanço importante.
No entanto, as discussões também reforçaram algo que eu já observava há bastante tempo: ainda existe uma distância entre as soluções planejadas e a participação efetiva das próprias pessoas com deficiência na construção dessas soluções.
Durante os debates, tive a oportunidade de fazer perguntas relacionadas justamente a esse tema.

Questionei como as pessoas com deficiência estão participando da elaboração das políticas, projetos e iniciativas de acessibilidade. Afinal, existe uma diferença significativa entre desenvolver soluções para pessoas com deficiência e desenvolver soluções com pessoas com deficiência.
Essa reflexão foi reforçada em diferentes momentos do encontro.
Na minha visão, a inclusão verdadeira acontece quando as pessoas com deficiência participam desde a concepção das ideias, passando pelo planejamento, desenvolvimento, implementação e avaliação dos projetos. Não apenas quando são convidadas a testar algo já pronto.
A experiência de quem vive diariamente as barreiras é um conhecimento valioso que não pode ser ignorado.
Outro ponto que considero importante registrar refere-se à acessibilidade em Libras oferecida durante o próprio evento.
Como participante surdo, tive dificuldades significativas para acompanhar parte do conteúdo apresentado. A qualidade da interpretação em Libras comprometeu bastante o entendimento de diversos momentos da programação.
Essa percepção não foi apenas minha. Outros participantes surdos também relataram dificuldades semelhantes.
A acessibilidade não pode ser compreendida apenas como a presença formal de um recurso. A qualidade desse recurso é fundamental para garantir participação efetiva.
Quando a interpretação não atende adequadamente às necessidades do público, a consequência é a perda de informações, a redução da participação e, em muitos casos, a exclusão da pessoa surda dos debates.
Por isso, considero essencial que eventos futuros contem com critérios rigorosos na contratação e avaliação dos serviços de interpretação em Libras, garantindo profissionais devidamente qualificados para atuar em encontros dessa relevância.
Apesar das observações e críticas, saí do evento com uma avaliação positiva.
O Tribunal Superior Eleitoral tem demonstrado um compromisso crescente com a pauta da acessibilidade e da inclusão. A realização de um encontro nacional dedicado ao tema, reunindo representantes de todo o país, já representa um passo importante.
Ao mesmo tempo, acredito que o próximo avanço precisa ser ainda mais consistente: ampliar a participação direta das pessoas com deficiência na construção das soluções que impactam suas vidas.
A acessibilidade não deve ser construída apenas para as pessoas com deficiência.
Ela deve ser construída com elas.
Essa foi, sem dúvida, a principal reflexão que trouxe comigo dessa experiência em Brasília.
