Diário de um surdo – 021: Eu estava bem. E de repente não estava mais.


É estranho falar isso.

Porque tem fases em que eu realmente estou bem.
Durmo melhor. Trabalho focado. Me sinto útil. Consigo rir de verdade.
Faço planos. Me organizo. Acredito.

E aí eu penso:
“Agora vai. Agora estabilizou.”

Só que a depressão não é linha reta.

Ela é onda.

Tem dia que eu acordo mal.
Sem motivo claro.
Sem notícia ruim.
Sem tragédia acontecendo.

Só um peso.

E o que mais machuca não é a tristeza em si.
É a frustração.

Porque eu passei um longo período bem.
Até meses funcionando.
Meses me sentindo forte.

E quando a oscilação vem, parece que eu voltei várias casas no jogo.

Vem aquele pensamento silencioso:
“De novo?”

A expectativa é traiçoeira.
Quando a gente fica muito tempo bem, começa a acreditar que acabou.
Que venceu.
Que superou de vez.

Mas depressão não é assim.

Ela não é falta de fé.
Não é ingratidão.
Não é drama.

É uma condição que oscila.

Tem dias que eu me sinto firme.
Tem dias que eu me sinto quebrado.
E o mais difícil é aceitar que os dois fazem parte de mim.

Eu ainda faço terapia.
Ainda tomo medicação.
Ainda oro.
Ainda tento manter rotina.
Ainda luto.

Mas tem dias que dói.

E talvez amadurecer seja isso: entender que estar mal de novo não significa que todo o tempo bom foi mentira.

Não foi.

Eu fui feliz.
Eu fui produtivo.
Eu fui leve.

E agora estou atravessando uma fase outra fase.

Quero e tento acreditar que isso não apaga o que já construí.

Talvez vencer, pra mim, não seja nunca mais oscilar.
Talvez seja continuar aqui.
Mesmo quando o humor muda.
Mesmo quando a vontade diminui.
Mesmo quando a expectativa quebra.

Eu ainda estou aqui.

E hoje, isso já é muito.


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