Existe uma narrativa muito difundida de que a música em Libras representa o auge da inclusão. Vídeos viralizam. Plateias se emocionam. Comentários dizem: “Agora os surdos podem sentir a música.”
E eu fico feliz, sim, ao ver que a Libras ganha cada vez mais espaço e visibilidade. Isso é avanço. Isso é conquista.
Mas é importante dizer com clareza: muitas dessas falas partem de uma lógica específica: a lógica ouvinte.
Eu sou surdo. Nasci ouvinte e perdi a audição ao longo da vida. Sempre tive uma relação muito boa com música. Depois do implante coclear, estou retomando isso aos poucos, me adaptando novamente aos sons, às vozes, às melodias, reconhecendo experiências antigas de uma forma diferente.
Eu gosto de música.
Gosto de show.
Gosto de estar onde as coisas estão acontecendo.
Gosto de estar onde me sinto bem-vindo, onde percebo que o evento também foi pensado para mim.
Mas também gosto de teatro, museu, exposições, palestras, encontros culturais, debates. Eu gosto de cultura. Eu gosto de presença. E em todos esses espaços eu preciso de acessibilidade em Libras.
O ponto aqui não é desvalorizar a música em Libras. Ela é importante. Intérprete no palco é direito linguístico. A acessibilidade precisa existir. A questão é outra: a romantização.
Pesquisadores como Paddy Ladd defendem que a cultura surda deve ser compreendida a partir de sua própria perspectiva linguística e visual, não a partir de parâmetros ouvintes. Quando a experiência sonora é colocada como centro universal da cultura, estamos adotando um padrão que não contempla toda a diversidade humana.
A ideia de que “música é universal” costuma nascer da experiência de quem ouve.
Para muitas pessoas surdas, quando há envolvimento com música, essa experiência acontece de outra forma: pela vibração no corpo, pelo ritmo visual, pelo movimento, pela energia do ambiente, pelo contexto social do evento. Não é necessariamente a melodia que emociona. Não é a harmonia que define a experiência.
E para algumas pessoas surdas, a música simplesmente não ocupa esse lugar central. E está tudo bem.
A literatura na área de Estudos Surdos mostra que a vivência musical entre pessoas surdas é heterogênea. Não existe um padrão. Não existe uma regra. Não existe uma obrigação cultural de amar música.
O problema não é ter intérprete em show.
O problema é quando isso vira espetáculo.
Quando a interpretação é pensada mais para impactar o público ouvinte do que para garantir compreensão.
Quando há exagero performático para gerar emoção.
Quando a Libras vira atração paralela.
A Libras não é efeito especial.
É língua.
Acessibilidade não deve servir para produzir comoção. Deve servir para garantir participação.

O surdo não quer ser plateia de um show sobre sua própria língua.
Ele quer estar incluído de verdade.
Quer entender.
Quer participar.
Quer circular no espaço com autonomia.
Quer sentir que pertence.
A cultura surda é muito maior do que música. Ela envolve identidade, comunidade, língua, história, pertencimento.
Existe surdo que ama música? Sim.
Existe surdo músico? Sim.
Existe surdo que não se conecta com música? Também.
A experiência não é uniforme.
Eu gosto de música. Mas o que define minha vivência cultural não é a música em si.
É poder estar presente com acessibilidade real.
Acessibilidade é direito.
Os intérpretes precisam estar lá.
A Libras precisa ocupar espaço.
Mas é preciso consciência.
O público surdo não quer espetáculo e nem vulgarização da própria língua.
Quer inclusão.
Quer respeito.
Quer pertencimento.
Inclusão não é performance.
É responsabilidade.
Thiago Perné Santos
Especialista em Acessibilidade, Diversidade e Inclusão
23 de março de 2026




