É estranho falar isso.
Porque tem fases em que eu realmente estou bem.
Durmo melhor. Trabalho focado. Me sinto útil. Consigo rir de verdade.
Faço planos. Me organizo. Acredito.
E aí eu penso:
“Agora vai. Agora estabilizou.”
Só que a depressão não é linha reta.
Ela é onda.
Tem dia que eu acordo mal.
Sem motivo claro.
Sem notícia ruim.
Sem tragédia acontecendo.
Só um peso.
E o que mais machuca não é a tristeza em si.
É a frustração.
Porque eu passei um longo período bem.
Até meses funcionando.
Meses me sentindo forte.
E quando a oscilação vem, parece que eu voltei várias casas no jogo.
Vem aquele pensamento silencioso:
“De novo?”
A expectativa é traiçoeira.
Quando a gente fica muito tempo bem, começa a acreditar que acabou.
Que venceu.
Que superou de vez.
Mas depressão não é assim.
Ela não é falta de fé.
Não é ingratidão.
Não é drama.
É uma condição que oscila.
Tem dias que eu me sinto firme.
Tem dias que eu me sinto quebrado.
E o mais difícil é aceitar que os dois fazem parte de mim.
Eu ainda faço terapia.
Ainda tomo medicação.
Ainda oro.
Ainda tento manter rotina.
Ainda luto.
Mas tem dias que dói.
E talvez amadurecer seja isso: entender que estar mal de novo não significa que todo o tempo bom foi mentira.
Não foi.
Eu fui feliz.
Eu fui produtivo.
Eu fui leve.
E agora estou atravessando uma fase outra fase.
Quero e tento acreditar que isso não apaga o que já construí.
Talvez vencer, pra mim, não seja nunca mais oscilar.
Talvez seja continuar aqui.
Mesmo quando o humor muda.
Mesmo quando a vontade diminui.
Mesmo quando a expectativa quebra.
Eu ainda estou aqui.
E hoje, isso já é muito.
